Um encontro com a APOV


O que é a APOV? Em 2013 fiz essa pergunta para minha companheira de vida, no evento da “Noite de Massas”, realizado no espaço de festas do Mundial Parque Hotel. O evento, acredito, organizado pela Fraternidade Pequena Via e com a participação de colaboradores da APOV, tinha a finalidade de arrecadar fundos para investir nos trabalhos educativos e sociais desenvolvidos na instituição. No mesmo evento tive a oportunidade de conhecer a Hilda Simone e o Marcos Nunes, responsáveis indiretos pela minha presença naquele espaço, em virtude da Hilda ter comprado os ingressos e ter presenteado os seus orientados do departamento de Letras da UFV. Por coincidência a minha namorada era sua orientada. A resposta que escutei pela pergunta inicial foi a seguinte: “é uma ONG que realiza um trabalho assistencial lá no bairro Nova Viçosa”. Ainda curioso perguntei: “onde fica Nova Viçosa?” A resposta foi essa: “ só sei que fica em lugar afastado do centro da cidade”. Interpretei e respondi que por ser afastado do centro da cidade esse devia ser o motivo de realizar um trabalho educativo e social, uma vez que os serviços básicos não devessem chegar por lá.

O ano era 2016. Recebo uma mensagem de uma amiga, de longa data (fizemos a graduação e o mestrado juntos), dizendo que APOV lançou um processo seletivo para trabalhar com educação e o pré-requisito para se inscrever era ser formado em qualquer licenciatura. Sendo licenciado em História, não hesitei em me inscrever e pleitear a vaga, afinal precisava trabalhar. Porém, como uma das etapas do processo de seleção era a elaboração de um projeto para enviá-lo à comissão avaliadora, e como realizei a matrícula aos “45 do segundo tempo”, tinha apenas um dia para pensar e escrever a proposta designada pela comissão. Concentrei-me, pedi inspiração divina e apliquei todo meu conhecimento relacionado a metodologias ativas e pedagogia de projetos. Recordo-me que a minha linha de escrita foi sempre olhar e respeitar a realidade e os interesses da criança. De uma forma geral, esses termos eram novos e desconhecidos para mim, mas já tinha ouvido falar na disciplina de didática e de políticas públicas em educação e, por isso uma pesquisa no material de estudo ajudou. Contribuiu para essa etapa a minha experiência com a escrita de projetos, por isso elaborei a proposta com muito empenho.

No decorrer da seleção tive que ir à APOV e, a partir dessa oportunidade, conheci parte do bairro Nova Viçosa. Lembrei-me da minha pergunta feita três anos antes, “onde fica Nova Viçosa”? O fato é que fui sendo aprovado nas etapas do processo e até que um belo dia o Renato, diretor da instituição, me liga e fala: “Tiago, vem trabalhar com a gente!”. Respondi: “Claro, Renato! Quando começo?”.

Chegando à APOV, já como funcionário, me lembrei da outra pergunta feita em 2013: “O que é APOV?” Passou o primeiro ano e conseguia responder apenas onde ficava o bairro Nova Viçosa. Entretanto, nesse mesmo ano de contato com a instituição um sentimento ficou vivo em mim, que se refere a sua filosofia de trabalho, a qual visa perceber a criança e o adolescente não como uma mercadoria, como vítimas ou incapazes, mas pelo contrário, os enxergavam como agentes potenciais, capazes de modificar a sua realidade. Por essa constatação, comecei a compreender que APOV não era o local apenas de construção de conhecimento, mas também proporcionava momentos de olhar e escutar o outro, um espaço que transmite a importância de se ter fé nas ações humanas, um lugar que dá a oportunidade de falar de Deus, simplesmente um ambiente acolhedor.

O que isso significou para mim? Primeiramente me proporcionou uma transformação interior ao ensinar olhar para as pessoas com empatia e compaixão, assim como me possibilitou valorizar o que tenho, sobretudo, as coisas mais simples. Também me proporcionou ficar próximo a Deus por meio de orações e, principalmente, por ações. Por sua vez, percebi que aquele local abre possibilidades de vida e transforma a realidade das crianças e adolescentes, bem como a dos colaboradores, famílias e toda a comunidade.

A partir dessas transformações e verificações, comecei a compreender que meu trabalho não era apenas “ensinar” ou aplicar alguma metodologia aprendida na universidade ou nas formações. Constatei que todos os dias temos que fazer a “multiplicação dos pães e peixes”, ou seja, ajudamos a todos os colaboradores e educandos nas pequenas coisas, estamos atentos às necessidades do próximo. De modo geral, no nosso local de trabalho é possível demonstrar amor e cuidado com o próximo.

Desde o princípio, imaginava que a APOV não fazia caridade porque sempre entendi tal ato como uma forma de expor as pessoas, constituindo na possibilidade individual da autopromoção. Mas pelo retiro (promovido pela Fraternidade Pequena Via aos seus membros que atuam na APOV) que participei no final de 2019, entendi que a caridade é uma virtude cristã, que diz sobre o amor, o olhar para outro, percebendo o próximo na sua singularidade e na sua fragilidade. Nesse sentido, as ações que são realizadas e não promovam o amor de Deus é apenas assistencialismo. Ao contrário, nós colaboradores da APOV buscamos nas nossas ações atender as necessidades das crianças, dos adolescentes, das famílias e da comunidade, propagando a importância da partilha, da oferta, da dignidade humana e da fé em Deus. Acredito que toda essa ação é realizada pela inspiração de Santa Teresinha: “Só tenho hoje para amar”. Isso significa que todos os dias e em todos os instantes precisamos agir de forma caridosa, ou seja, respeitando, cuidando, partilhando com o irmão as oportunidades da vida e as dádivas de Deus, sem esperar nada em troca, apenas que outro cresça em todas as dimensões de sua vida.

Por isso, destaco que na APOV fazemos uma caridade em Deus por meio da dedicação, do respeito, da empatia e da partilha com o próximo. É possível observar o retorno dessa caridade na materialização do amor no olhar, nos sorrisos e nos abraços das crianças e dos adolescentes. Também é possível a manifestação do amor de Deus diante dos conflitos, necessidades e desafios diários, uma vez que esses momentos é que nos exigem equilíbrio, reflexão e oração. Por isso, quem quer ser um colaborador da APOV e não tem o coração aberto, não permanece por muito tempo na instituição, tendo em vista que ela exige sensibilidade, caridade, compaixão e ações humanas como a do “bom samaritano”, principalmente quando somos chamados a ajudar a curar as feridas ocultas das pessoas presentes em nossa rotina de trabalho.

Por fim, não há dúvidas de que a APOV é um lugar de movimento que proporciona a transformação da vida das pessoas, local onde é possível acreditar em uma sociedade melhor, espaço onde o amor se materializa, ambiente abençoado por Deus.


*Tiago Leal é coordenador pedagógico do Projeto Caminhar, desde maio de 2019, tendo ingressado na APOV como educador social, em 2016.


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